Uma índia pega no laço

A história de Maria do Carmo de Souza, sequestrada de sua aldeia de origem, foi contada pela sua neta. Hoje, Mariana Portela, com 67 anos relembra a história que sua avó paterna lhe contava, de como foi parar no seringal e se casou com um seringueiro vindo do interior da Paraíba para o Acre durante o ciclo da borracha, no início do século XX.

Maria do Carmo foi um nome dado à indígena quando foi batizada pela igreja católica. O seu nome original não é lembrado pelos filhos e netos. Ao final de sua vida talvez nem ela lembrasse mais. “A vovó dizia ser da tribo Jaminawa, mas ela era um pouco diferente das outras índias. Sempre achei que talvez a mãe dela tenha sofrido abuso, por isso minha avó não nasceu com todos os traços indígenas”.

Antes de ser capturada e levada para o seringal, Maria do Carmo já havia fugido uma vez. Ela estava na mata quando foi surpreendida por uma correria, nome dado a mutirões realizados para sequestrar índios “brabos” e domesticá-los. Ela dizia que foi “pega no laço e presa”, porém, em certo momento deixaram apenas um homem branco para cuidar dela e de outros três índios, enquanto o resto do grupo procurava por mais indígenas.

“‘Não sei de onde tirei coragem’, era assim que ela me contava. Ela estava com as mãos amarradas quando o homem que estava vigiando se distraiu. Não pensou duas vezes e pulou em cima dele, arrancando um pedaço de sua orelha. Naquele momento, ela só pensava  em fugir”, conta Mariana.

Com o tempo, as correrias foram ficando mais organizadas e adestravam cachorros para localizar os índios na mata. Perseguida por um cachorro, foi assim que encurralaram e prenderam Maria do Carmo. A partir desse momento, sua vida mudaria completamente. “Ela conseguiu escapar do laço, mas não conseguiu fugir dos cachorros. Foi pega a dentes de cachorros, como é dito popularmente. Vovó sempre me mostrava algumas cicatrizes no seus braços e pernas feitas pelos animais.”

A indígena foi capturada e levada para casa de um seringalista, onde foi batizada e educada. Depois, seria esposa de um seringueiro que conseguisse colher a quantidade de látex estipulada pelo patrão. Colocar mulheres como prêmio era uma prática comum dos senhores da borracha. Naquela época, existiam poucas mulheres na região e ter uma era artigo de luxo, um prêmio dado para aqueles que alcançavam metas.

Domesticação

Ela tinha os olhos um pouco claros, o cabelo liso e bem escuro. Seu rosto não era tão redondo como os das outras índias, era fino e comprido. “E era muito bonita”, assim a neta descreve sua avó.  Maria do Carmo acreditava que a beleza a ajudou no mundo dos brancos. Provavelmente ela tinha traços indígenas menos acentuados em uma época de forte preconceito étnico.

A avó tinha em seu pulso, do braço direito, o nome “P. Biló”. Essa era uma forma de registrar o nome de quem comandou a correria. Muitos índios eram marcados com ferro quente e a ferida ficava inflamada por vários dias. “Não queriam estragar a pele dela, fizeram com jenipapo e uma faca, falaram que ela só tinha escapado de ser queimada por ser bonita”, explica a neta.

Depois de capturados e marcados, os índios eram levados para o barracão, onde a esposa do seringalista era responsável por educar as mulheres. Ensinava a ler, escrever e como cuidar de uma casa. Os homens eram ensinados a cuidar do roçado por um índio velho.

Maria do Carmo era muito obediente à sua senhora, dona Antônia, esposa do seringalista Major Roof. Além de ser considerada bonita, era obediente, fazia tudo que a patroa mandava. Aprendeu a ler e se portava exatamente como era exigido, por isso era muito querida e elogiada. “Tinham umas índias que não se acostumavam com a nova vida. Elas não queriam fazer nada, nem mesmo falar. Essas eram chamadas de rebeldes e preguiçosas”, conta Mariana Portela.

Uma vida roubada

Antes de ser Maria do Carmo, ela tinha outra identidade, outra família, outros costumes, mas tudo que tinha vivido e aprendido deveria ser esquecido. Se ela não aceitasse os novos costumes, seria castigada. Por isso ela não resistiu, estava sozinha e muito longe de sua aldeia.

Ela contava que todas as noites, chorava escondido da senhora. O choro tinha que ser silencioso, para não demonstrar fraqueza e rebeldia.  Ela sentia saudades dos filhos que haviam ficado na aldeia, duas meninas e um menino.

“Vovó chorava porque nunca ia saber o que tinha acontecido com as crianças dela. Não sabe se eles conseguiram sobreviver, se que algum deles foi pego em uma correria. Ela sentia muita saudades”, lamenta.

O valor do casamento

Maria do Carmo era prendada, sabia bem como cuidar de uma casa, por isso depois de um ano de treinamento, já estava pronta para casar. Naquela época era comum ter festa para apresentar as índias: quanto mais bonita e prendada, mais valor tinha.

Nenhum dos seus pretendentes lhe agradava. Um desses pretendentes era o Amadeu, o avô de Mariana. “Ela não gostava dele, dizia que ele era um preto muito feio, muito fedido, apesar de nunca ter cheirado ele. É engraçado como ela aprendeu até isso, esse preconceito”, afirma a neta.

Para agradar Maria Carmo, Amadeu levava presentes, sempre prometia que no próximo ano alcançaria a meta de extração do látex imposta pelo patrão, para ter o direito de conseguir uma esposa. E assim foi feito. Foram dois anos para conseguir conquistar Maria do Carmo. “Vovó tinha muitos pretendentes. Apesar de não gostar dele, aceitou o pedido, pois ele era o único que falava em casamento e que demonstrava gostar dela”, explica Mariana.

Como a patroa gostava muito de Maria do Carmo, fez questão de que ela só saísse do barracão depois de casada. Com o tempo, Maria do Carmo disse ter se apaixonado por Amadeu. Afinal, ela teve a sorte que outras índias não tiveram. “Ela sempre contava que as outras que casaram na mesma época eram maltratadas por seus esposos. Algumas foram abandonadas e foram morar com outros”.

Maria do Carmo teve seis filhos com Amadeu Antonio de Souza . A caçula, nascida em 1927, é Juliana, mãe de Mariana. “Mamãe morreu em 2013, com 86 anos. Minha avó tinha um filho a cada dois anos. Provavelmente ela se casou em 1915, três ou quatro anos depois de ser sequestrada”.