Foto: Mariana Isla

Seduzida pela inocência

Mary Sâmia Silva Rocha é estudante de Letras Inglês da Universidade Federal do Acre (Ufac), tem 21 anos, é solteira e mãe de um menino de 7 anos.  Aos 10 anos seus pais se separaram e ela foi morar com o pai no interior do Estado do Acre, no município de Manoel Urbano, distante 244 km da capital.

Aos 12 anos Mary se envolveu com o pai do seu filho, aos 13 engravidou. A criança nasceu quando ela fez 14 anos. Para todos os familiares, a notícia da gravidez foi um choque, por causa da sua idade e também porque a sua irmã de 16 anos também estava gestante.  “Tentei esconder para minha mãe e para eu mesma, mas a barriga vai crescendo, o corpo mudando, não tem como fingir que nada está acontecendo. Comecei a fazer pré-natal com cinco meses de gestação”, diz.

Na época, a jovem não percebeu a violência que sofreu, ao ser seduzida e enganada por um homem 12 anos mais velho. “Eu soube que sofri um estupro quando estava na biblioteca e li um livro sobre isso. Estupro não foi só pelo fato de eu não ter a idade de consentimento. O fato de alguém te seduzir, te enganar com palavras, é um estupro. Com aquela idade eu caia fácil nas conversas dos homens”, explica.

O caso de Mary não é um fato isolado. De acordo com a estudante, essa é uma realidade vivida por muitas adolescentes da sua idade. A falta de estrutura do município, pouca educação, cultura e orientação familiar são fatores que influenciam a gravidez na adolescência. “Lá é tudo bem pequeno, não tem muitas opções do que fazer, muitas pessoas bem novas começam a se envolver com drogas e prostituição. É normal fazer sexo cedo, é natural se envolver com homem mais velho. Só depois, morando na capital, que eu percebi que isso não é certo”, relata.

Quando descobriu a gravidez, a adolescente foi contar para o pai do bebê. Porém, a reação dele não foi como ela esperava. “‘Esse filho não é meu, você sabe disso, não pode ser meu, isso vai me trazer problemas’, foi isso que ele me disse. Depois de um tempo descobri que ele já tinha sido preso por ser envolver com uma menina da minha idade”, conta.

Julgamentos

Atualmente Mary mora com o pai em Rio Branco, na capital do estado. Apesar do apoio dos familiares durante a gestação, a jovem teve enfrentar o julgamento de pessoas desconhecidas. Ela conta que isso foi o que mais a marcou. “As pessoas me olhavam, apontavam o dedo e falavam coisas. Isso é uma violência, é assédio moral. Eu tinha que ouvir coisas do tipo: começou cedo, tão novinha e já tá grávida, você gosta, você é assanhada”.

Até quando foi procurar atendimento médico nas unidades de saúde, Mary foi assediada. “Você vai procurar ajuda e tem que ouvir essas palavras de pessoas que deviam lhe ajudar, que deveriam ser profissionais. É muito complicado, te desestimula”.

Continuidade nos estudos

A gravidez transformou a rotina de Mary. Hoje ela precisa conciliar os estudos com a maternidade. Como não tem com quem deixar o filho, sempre o leva para as aulas. Para ela, estudar e ser mãe não é fácil, principalmente nos períodos de provas. A universitária precisa se esforçar para dar conta das atividades. “No começo era bem complicado trazer, ele era pequeno, não entendia muito as coisas. Hoje ele já entende que não pode fazer barulho, fica mais comportado”, explica.

Mary não recebe nenhuma ajuda financeira do pai da criança ou qualquer outro tipo de apoio. “Ele só é registrado com meu nome. Penso em ir atrás de registrar ele com nome do pai, mas estou me preparando psicologicamente para isso. Sei que não vai ser fácil ter que relembrar tudo. Eu preciso de tempo para isso e vou ter que esperar o período de férias da faculdade”.