Fotos: Diego Gurgel

Olhar profundo para a violência

Maria Zenaide de Souza Carvalho, chamada pelos amigos de Zenaide, tem 60 anos, é casada, tem cinco filhos adotivos e é parteira tradicional no Acre. Suas mãos já trouxeram ao mundo quase 300 bebês. Ela iniciou bem cedo o seu trabalho, com apenas 10 anos de idade realizou o primeiro parto.

A mãe de Zenaide era parteira e a filha sempre a acompanhou. Em um momento de urgência e por necessidade, a menina teve que partejar. “Tinha apenas duas parteiras na região e uma era minha mãe, que estava grávida. A mulher do meu tio também estava grávida e as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Tive que realizar o parto da minha tia”, explica.

Apesar do nervosismo e da pouca idade, tudo correu bem. Desde então, Zenaide passou a acompanhar sua mãe no ofício. “Aprendi muita coisa com ela. Também fiz curso de parteira no Pernambuco. Sempre fui muito requisitada pelas parturientes”.

Por ser considerada uma ótima parteira e amiga das mulheres, Zenaide tornou-se uma referência nos seringais. “Por eu ser uma liderança, várias mulheres me procuraram para contar o que estava acontecendo. Sempre tinha um caso de violência, mas elas não contam para ninguém, ficava tudo escondido”. A parteira foi confidente de muitos casos de violência e também foi vítima de um.

Em 15 de novembro de 2004, na festa de aniversário do município de Marechal Thaumaturgo, onde morava, Zenaide sofreu uma tentativa de estupro. O agressor era um conhecido da família, filho de uma amiga, uma senhora de mais 100 anos. “Durante a festa, eu e uma amiga paramos para beber água na casa dessa senhora quando ele atacou, começou a arrancar minha roupa, me deixando nua. Ninguém fazia nada”.

Para se defender, ela empurrou o homem contra a parede. “Naquele momento, pensei que tinha acabado. Então, ouvi alguém gritando ‘lá vem o murro, dona Zenaide’. Quando me dei conta, já estava com o olho cheio de sangue”.

Devido à agressão, Zenaide teve um derrame. “O sangue coagulou, meu rosto ficou todo preto. A médica me aconselhou a vender a casa no seringal, começar a morar na cidade para poder fazer acompanhamento médico. E assim eu fiz. Vivi a vida toda no seringal e tive que ir embora”.

A violência sofrida por Zenaide lhe custou a visão de um olho, perda da mobilidade, mudanças no hábito de vida. Ela teve que sair do lugar que gostava, deixar amigos e familiares. O agressor ficou dois meses preso, pagou fiança e saiu.

Violência nos seringais

Zenaide testemunhou muitos casos e tipos de violência contra mulheres no seringais. Ela diz acreditar que isso acontece por falta de conhecimento das vítimas, pois em algumas situações elas nem sabem que sofrem violência. “Lá na cabeceira do rio Tejo, sempre tem uma mulher que aparece com olho roxo, corpo roxo. Ela sempre nega que foi o marido, sempre inventa uma desculpa, diz que caiu da escada, bateu na maçaneta. Naquela época não tinha Maria da Penha, só peia mesmo. Agora tem, mas ela não procura”.

Para Zenaide, as mulheres não se separam por medo de serem julgadas. Afinal, no patriarcado o casamento é algo sagrado e uma mulher casada é uma mulher honrada. “O marido pode ser ruim, não trabalha, gasta o dinheiro todo da Bolsa Família com bebida e ainda bate nelas. Mesmo não dependendo deles para nada, elas não se separam, não querem ser julgadas. A maioria é evangélica. Sou evangélica, mas se meu marido fosse ruim comigo, eu iria embora”.

A falta de conhecimento e empoderamento prende essas mulheres em um ciclo de violência que elas não conseguem se libertar. Casar cedo, apanhar, ser submissa aos homens é algo normal, naturalizado. Zenaide acredita que deveria existir um trabalho de conscientização nas comunidades tradicionais. “Tem que ter alguém que diga, que explique que isso não pode acontecer, que é errado, não é certo. Elas não sabem, não procuram saber. Existe livro e cartilhas, mas algumas nem sabem”.

Como liderança, a parteira já fez palestras em alguns seringais. Falava sobre planejamento familiar, gravidez na adolescência, explicava sobre o corpo feminino e como ocorre a fecundação. “Quando eu abria o livro para mostrar o corpo humano, elas baixavam a cabeça. Teve uma que ficou o tempo todo de cabeça baixa. Ao final da palestra, fui conversar com ela, que me disse que o marido não gostava que ela aprendesse essas coisas”.

Privar uma mulher de conhecimento também é uma forma de agressão, para que ela seja submissa e obediente. “Ela só tinha participado dessa aula porque o marido não tava lá. Se tivesse, ela não teria ido”.

Violência pós parto

Considerada uma “parteira fina”, Zenaide já realizou 287 partos. O último foi no dia 17 de setembro de 2017. Por causa da sua fama e bom trabalho, ela sempre foi muito requisitada pelas grávidas nos seringais, fama que mantém depois que foi morar na capital.

Após o parto, ela explica sobre os cuidados necessários para uma recuperação tranquila, mas relata que nem sempre os maridos não respeitam o período de resguardo. Muitas são obrigadas a fazer sexo depois do nascimento dos seus filhos. “‘Eu tenho que servir o meu marido senão ele vai ficar com raiva, é o meu dever’, era assim que elas falavam. Tinham que cuidar da criança e fazer sexo com dois ou três dias de resguardo”.

Em um seringal, Zenaide conta que fez o parto de 10 crianças de uma mulher que teve 25 filhos. “Ela ganhava bebê, quando se levantava da cama já estava grávida de novo. Para ela era normal, é aquela história de servir ao marido”.

Gravidez na adolescência

Segundo a parteira é comum as meninas dos seringais casarem novas. Porém, com o passar do tempo, considera que elas estão se casando cada vez mais cedo. Antes, a faixa etária era de 15 a 18 anos, atualmente é de 11 a 13.

Esse fato ocorre devido a situação de pobreza em que famílias vivem. ”Os pais já têm muitos filhos para cuidar. Quando as meninas começam a namorar, logo ficam grávidas, por isso se juntam logo com o homem. As mães costumam aumentar idade das filhas para o padre poder realizar o casamento, que é exigido a idade mínima de 16 anos”, explica.

Os maridos das meninas sempre são mais velhos. Para Zenaide, é por causa da experiência que homens mais velhos têm. “Eles tem lábia, sabem seduzir, dizem que vão cuidar delas, vão dar uma vida melhor. Mas nem sempre isso acontece”.

Ela conta que um dos partos mais arriscados foi de uma menina de 11 anos, que teve um bebê de cinco quilos. Tinha engravidado com apenas 10 anos, faltando três meses para completar outra idade. “O corpo dela era de criança ainda, não estava totalmente desenvolvido. O útero é menor e com as paredes mais finas. No final deu tudo certo, consegui salvar os dois”, relata.

Para Zenaide, é necessário ter mais capacitação para as parteiras do interior, principalmente agora que a idade das parturientes está cada vez menor. “Alguém precisa proteger essas crianças. Elas engravidam cedo, casam cedo, tem muitos filhos, porque não sabem o que é planejamento familiar. Elas não têm expectativa de uma vida melhor, de um futuro melhor. Como vão ser alguém na vida com um monte de menino para criar? O marido muitas vezes não ajuda a cuidar e ainda fica com raiva quando a criança chora”.