“Se eu continuasse no relacionamento ele ia me matar, uma hora a gente tem que pedir socorro”.

A história de Inês Rodrigues da Silva, 30 anos, é um relato contado por muitas acreanas que residem no interior do estado do Acre e saem em busca de uma vida melhor na capital.

Aos 13 anos, saiu com sua mãe do município de Cruzeiro do Sul, viajando por 630 km para morar em Rio Branco. Inês e sua mãe passaram a residir no bairro  Cidade Nova, periferia da capital, um dos locais mais atingidos quando as águas do Rio Acre começam a subir.

Em um parque diversões conheceu seu primeiro marido, ela com 18, ele com 34 anos. Na época, sua mãe faleceu e Inês foi morar com seu novo namorado,  que a tratava bem e não apresentava sinais de agressividade.

Após oito anos de casamento iniciaram os ciúmes, desconfianças e sentimento de posse por parte do marido, com agressões que foram aumentando no decorrer dos anos. O comerciante, 16 anos mais velho que sua esposa, passou a fazer agressões verbais que vieram a ser diárias, sempre às escondidas, na intimidade do casal.

Nos casos de violência contra mulher, o abuso dos companheiros pode ter várias formas e não se limita à violência física. Muitas vezes se iniciam com palavras, afetando diretamente o estado emocional das mulheres, que passam a sentir medo e se culpar pela violência sofrida.

No início, ela não queria que as pessoas próximas soubessem o que enfrentava. “Ele era muito ciumento, possessivo, ficava me arrumando homens. Quando começou a me bater, eu tinha vergonha de falar sobre isso.”

Coragem para enfrentar

Só quando entrou para a faculdade e iniciou o curso de Serviço Social que Inês começou a perceber que o sofria não era certo e podia exigir seus direitos. “Em um estágio que realizei no abrigo Casa Rosa Mulher, ouvi relatos de outras mulheres com histórias semelhantes à minha. Foi quando me dei conta que enfrentava os mesmos problemas e, assim como elas, tinha o direito de dar um basta na violência que sofria”.

Inês continuou o relacionamento, mas percebeu que seu companheiro não iria mudar suas atitudes. “Fui agredida várias vezes, mas só criei coragem para fazer a denúncia na Delegacia da Mulher após uma agressão que sofri na frente do meu filho. Porém, nada foi feito com ele.”

Ela saiu de casa com o filho e a roupa do corpo. Buscou ajuda no abrigo Mãe da Mata, onde recebeu toda a assistência necessária. Após 25 dias no abrigo, voltou a morar na com seu marido. Com o retorno à casa, voltou a sofrer ameaças, dessa vez de morte. Foi quando fez a segunda denúncia, mas novamente a polícia nada fez para deter o agressor.

O número da última ocorrência ficou guardado até hoje na memória de Inês. “Dessa vez foi ameaça, disse que ele só iria virar homem pra mim quando levasse um tiro ou na faca”. Nessa hora ela percebeu que a situação tinha chegado no seu limite.  “Não iria melhorar e sim piorar cada vez mais, até chegar a um ponto que ele pudesse vir a tirar minha vida na frente de meu filho”.

De voltas às origens

Inês decidiu retornar à sua cidade natal, para se afastar das ameaças e se proteger. A segurança do seu filho foi um dos motivos para ter coragem. “Não queria que ele crescesse vendo esse tipo de violência”.

Para fugir de seu agressor, há dois meses Inês voltou a morar em Cruzeiro do Sul, com seu pai e sua irmã. Mesmo tendo concluído sua formação, ainda está em busca de um emprego para se reestabelecer.

Atualmente, está acionando a justiça para conseguir uma pensão do ex-marido. “Até tentei fazer um acordo com ele para a pensão do nosso filho, mas ele quer pagar um valor muito inferior ao que nosso filho tem direito”, conta a mãe do menino de 2 anos, fruto do relacionamento abusivo que durou 12 anos.