Abuso dos esquecidos

Criada desde a infância no ramal Gramado, localizado no município de Acrelândia (AC), Maria Creuza Lima do Nascimento, 35 anos, viu sua vida mudar após a morte do pai. Tinha apenas 13 anos.

A mãe casou-se novamente e um ano depois começaram os assédios infringidos por seu padrasto, que tentava violentar ela e sua irmã. Cansada dessa perseguição, anos 14 anos fugiu para morar com um namorado.

“Tive vergonha e medo do que meu padrasto poderia fazer comigo. Então resolvi fugir com meu namorado. Nunca contei à minha mãe nem a ninguém o motivo.”

O seu primeiro relacionamento durou dois anos. Então, Creuza decidiu sair do interior de Acrelândia e ir para a capital, Rio Branco. Pouco tempo depois, foi morar na Vila Caquetá, localizada na estrada de Boca do Acre (AM), onde conheceu o pai de seus três filhos mais velhos, duas meninas e um menino. Com cinco anos de casamento, decidiram pela separação.

Ainda morando no mesmo local, conheceu o seu terceiro marido, na época com 62 anos. Foi morar com ele no Ramal dos Esquecidos com seu novo companheiro, pertence à mesma comunidade, e começou a trabalhar como agricultora na produção de hortaliças.

Casada com uma pessoa mais experiente, Maria acreditava que ele pudesse ser um bom pai para suas crianças, que ainda eram muito pequenas. Durante o casamento, gerou mais seis filhos.

Com o passar dos anos, o marido mudou o comportamento e passou a ser agressivo com ela. Muitas vezes a forçava a fazer sexo. Mas nunca imaginou que o companheiro, com quem vivia há 12 anos e que a ajudou na criação dos enteados, fosse capaz de cometer abusos contra suas filhas.

 

Um pedido de socorro

Em 2015, Creuza foi chamada ao colégio de suas filhas, quando foi informada que elas contaram sofrer abusos do padrasto. A mãe não acreditava e ficou na dúvida se realmente era verdade, pois elas nunca tinham falado nada sobre isso.

“Não sabia o que fazer e a quem recorrer, pois meu marido agia naturalmente, como se tudo não passasse de uma mentira. E eu mesma não queria acreditar”.

A filha mais velha, com 18 anos, cansada dos abusos, decidiu denunciar pessoalmente. Ao saber do caso, a polícia repassou ao Ministério Público, pois se tratava da vida de nove crianças que poderiam estar sofrendo abusos. Na época, Maria Creuza também era vista como uma possível cúmplice dos abusos.

O casal foi convocado a prestar esclarecimentos. Sem entender do que se tratava, ela foi à delegacia com seu marido. Ao conversarem sobre as acusações, a mãe quis saber do companheiro se aquilo que estava ouvindo era verdade. No primeiro momento ele negou. Mas, colocado sob pressão, disse que apenas havia tentado. Depois, confirmou as acusações.

Nos relatos das filhas, os abusos iniciaram no início do casamento da mãe, quando elas tinham entre 6 e 7 anos. Revoltada com a confirmação, ela começou a brigar na audiência, mas ele foi liberado e retornou à sua casa.

Maria Creuza e os filhos ficaram em Rio Branco e, com a confirmação dos estupros das filhas, o Ministério Público encaminhou uma equipe à casa onde estava hospedada oferecendo proteção a ela e seus filhos.

 

Sob a guarda da justiça

Tendo estudado apenas até a 4ª série do ensino fundamental, e sempre morando em regiões rurais do interior do estado, Creuza não sabia o que era um abrigo. “Fiquei com medo de ir para o abrigo, pois não sabia como era, se teria comida para meus filhos. Mas eles me explicaram que meus filhos e eu poderíamos estar correndo risco de vida devido às agressões que presenciaram na audiência. Então, decidi ir”.

Na maioria dos casos, mulheres com baixo nível de escolaridade e instrução sobre seus direitos, sofrem abusos sem saber que se trata de uma violência. “Nos deram acompanhamento médico e psicológico. Explicaram sobre os meus direitos e sobre os abusos que sofri com meus filhos”.

Após três dias no abrigo, ela foi informada que o marido estava internado. Em agosto de 2017, após confronto com a polícia, que foi cumprir o mandado de prisão, ele foi atingido por dois tiros. E faleceu no hospital.

Maria e os filhos passaram 2 meses no abrigo e retornaram para casa. Suas filhas mais velhas não puderam voltar e ficaram sob a guarda da justiça, mas sempre falam com a mãe. Dois meses após a morte do marido, ela tenta organizar a vida com o apoio dos filhos. A agricultora voltou a trabalhar em sua horta, para tirar o sustento da família.

“Se viesse a passar por tudo novamente, jamais deixaria isso acontecer. Agora sei meus direitos e abri os olhos. Não sou aquela pessoa ingênua e desinformada que era”. Para ela, todo esse tempo foi como se estivesse em um pesadelo, mas que uma hora ia acabar.